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Imperdoável

Amargura e raiva combinam-se,
dilaceram-me a carne
consomem a jaula
querem sair, querem quebrar
querem devorar o ego de quem me pisou a face

Possuído; ódio e vingança
sangram-me os lábios
o sal das minhas lágrimas é acre
a minha face é escultura de cera
quero devorar o ego de quem me estraçalhou a alma

Sou gélida cariátide de raiva
vem, quero-te destruído
quero-te morta
quero-vos violados pelas verdades que temem
quero-vos gozados pelo escárnio da multidão

Vou-vos roubar a alma
Vou-vos cozer os lábios
Vou-vos infectar a visão
Vou consumir a vossa carne
Atirar-vos ao frio glacial da desilusão

Cegos, é isso que vocês são
Que importa se vos arranco os olhos?

(escrito ao som de Ghosts, dos Ladytron. Não houve nenhuma causa para isto, apenas 10 minutos de pensamentos invulgares.)

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E pronto, como não podia deixar de ser, ando meio passado de la cabeça once more. Não vai fazer sentido nenhum, nem quero que faça, mas a verdade é que às vezes parece que vou de cornos contra uma parede.

Nem sei se algo mudou, ou se está tudo igual à excepção da minha necessidade de ter. É horrível, insuportável, uma shitsorm de pensamentos e falta de feedback que me deita abaixo. E amor, amor, amor, sofrimento e atrofio, tudo encaixilhado e entregue num pacote impenetrável e sorridente, com um repertório de piadas de oportunidade e cansaço. Não sei, preciso de falar mas não consigo, e de novo de cabeça contra a parede, abraços lassos, um sorriso que me faz sorrir entregue com escassez controlada.

Are you still there? Am I wanting to be here too much? Como é que é suposto lidar com o mundo, caralho? Porque não posso simplesmente arrancar-te da realidade – deste aglomerado de coisas que não interessam – e ter-te sem todas as cocózices inerentes ao teu medo (que, ainda que justificado, aumenta a distância)
Preciso de uma oportunidade para ser corajoso. A minha mente divaga demasiado.

.

Sobre os pés

Tenho andado imenso tempo em inactividade. Devia ter vergonha na cara, certamente, mas ando com trabalho, e motivações para outras coisas. Basicamente, não ando virado para a escrita, se bem que a ela hei-de voltar eventualmente (I always do)

 Neste momento — e porque me sinto assim, bem, feliz, e sabe-se lá o que mais — deixo-vos apenas uma música que me deixa “bués de zen”:

 

 Decidi de uma vez por todas recomeçar e terminar a minha abordagem à temática dos Sete Pecados Mortais. Desta vez, no entanto, com mais maturidade, no bom português (não necessariamente no português bom) e sem Marie Sues para evadir-me de uma temática mais complexa. Ou consigo ou não.

  Assim, deixo-vos com Ganância, no qual já ando a pensar há muito tempo. Allan Poe salvou-me, creio =)

 

Ganância


  Por vezes demais são as mãos comparadas ao carácter e ocupação de um indivíduo. Por vezes demais essas comparações falham flagrantemente, e apenas o humor pode salvar os perpetuadores de tão aberrante juízo de valor. As pessoas têm destas coisas, destas quedas das quais se riem como que para fingir que não lhes doeu no ego. Estava-lhes no sangue, na necessidade de ser aceites. Ele sabia disso, claro, e sorria sempre que confrontado com tão básica condição humana.

  Mesmo agora, recostado confortavelmente na sua cadeira de baloiço – daquelas que chiavam após anos de abusos sofridos às mãos de netos inquietos – deixava o seu olhar percorrer lentamente as páginas de uma qualquer obra literária que lhe fora recomendada pela mulher com um sorriso afável. Não que estivesse a ler um pingo do que estava escrito; não lhe interessava minimamente, perdera o fio à meada quando a história começara a meter descrições aprofundadas sobre o passado de um qualquer fulaninho de tal sem interesse nenhum. Ainda por cima as letras eram demasiado pequenas, e os seus olhos excessivamente baços, quase opacos, para os forçar a ler aquela aborrecida sopa de letras.

 Não, não estava a ler. Simplesmente usava o livro como um fio condutor para os seus pensamentos, o chiar da cadeira como companhia e o desejo de pegar num cigarro e de se deixar sublevar pelo prazer tóxico do tabaco como forma de abafar os sons que vinham do andar de baixo, onde a sua família tagarelava animadamente. Havia algo na forma como as palavras eram conjugadas – no próprio emprego de termos como “saudosista” – que o deixavam a suspirar de si para si. E eram roucos e fatigados os seus suspiros, cheios de um significado futil, dando a entender que os soltava no desejo de que o chiar da cadeira – a sua única companhia – compreendesse o seu significado.

  E pronto, lá estava novamente, o autor! (ou seria uma autora? bem, não valia a pena verificar) Voltara a falar de mãos e pessoas, dando indícios de que ambos eram a mesma coisa. Ou então – agora que pensava bem – talvez não fosse isso, talvez já estivesse tão perdido que a profundidade literária de tudo aquilo o ultrapassasse. Bem, não interessava. Soltou outro dos seus suspiros, honesto para variar, ainda que a sua semelhança com um cão a tossir fosse notável. Pousou o livro nas pernas, pigarreando, apressando-se a vasculhar o bolso esquerdo pelo tão desejado cigarro. Teve que se contorcer um pouco no lugar (o que, tendo em conta o seu peso, lhe dava o curioso ar de um porco a debater-se no matadouro) até conseguir retirar o maço esmagado.

  Pegou num cigarro amarrotado, não fazendo caso disso. De imediato, pousou o maço numa mesinha-de-cabeceira à sua esquerda, tendo o cuidado de retirar o isqueiro. Segurando o pequeno objecto entre os lábios, acendeu-o. Sugou o fumo com avidez, uma avidez que lhe era característica. Todos os seus movimentos eram ávidos; já a sua falecida mãe dissera vezes sem conta “quando lhe dava mamar, o coitadinho parecia incapaz de se sentir satisfeito!”

  Já estava a recordar a mãe! Ah, como a amara! Fora horrível o facto de ela ter tido de partir, mas todos temos de ir, não é verdade? Nem valia a pena pensar nisso. E assim, deixando-se levar pela nicotina, começou a apreciar as próprias mãos.

  Ali estavam mãos invulgares: eram sapudas, de veias pouco visíveis, a pele algo esticada e rugosa da idade, unhas quase imperceptivelmente amarelecidas. Eram as mãos de um velho, as suas. Quem olhasse para elas, nada mais teria a acrescentar. “Essas são as mãos de um velho”, diriam. E ele acenaria. Ele aceitaria tudo como se aquelas mãos não tivessem devorado pessoas de um trago, como se aquelas mãos não tivessem sido magras e fortes, usadas para todo o tipo de tarefas, fossem elas a entrega de uma encomenda ou o pressionar de um gatilho, como se aquelas mãos não tivessem movido montanhas, levando-as para longe de quem delas realmente precisavam.

  Aquelas mãos fizeram muita coisa, pensou para si, puxando o fumo de novo para o seu tórax. Expirou com agrado e indiferença. Aquelas mãos, que tanta coisa fizeram, nem sequer valiam aquela sua breve reflexão. O passado era o passado, e não se arrependia de nada. Deus tratara de o absolver, e a sua mãe é que fora uma tola, uma santa – Deus a tenha – que já o devia ter desculpado pela sua frieza. Nada daquilo importava, na verdade. Trouxera muito de bom para si e para a sua família: eram felizes a comprar livros muito inteligentes, a pôr cadeiras de baloiço a chiar, a fazer jantares de Natal com discussões à porta fechada, a ser uma família como qualquer outra. Ninguém o podia apanhar agora, nem a ele nem a nenhum dos seus. Sabia demasiado sobre as pessoas certas, sabia fazer o Sistema dançar nas suas mãos de velho afável, sabia deixar cada um à vontade de rir da sua incapacidade de lhe fugir.

  Era muito simpático da sua parte, demonstrava muita preocupação para com os outros, o que enchia a sua barriga de orgulho, deixando o seu coração a sufocar em massa gorda. O médico avisara-o, claro, mas o homem da bata branca fora demasiado arrogante, demasiado seguro, convencido de que ele é que sabia do que estava a falar. Não percebia nada do altruísmo glutão que tinha em mãos (umas mãos de pianista, sem dúvida, ninguém acreditaria que aquelas mãos alguma vez conseguiriam exercer tamanha profissão. Talvez essa fosse a fonte da sua incompetência). Receitara uma data de porcarias para um caso de ossos largos (e toda a gente sabia que os ossos largos não tinham cura).

  O que tinha era tosse. O que sentia era cansaço. O que expirava eram suspiros roucos e fétidos. E transpirava, oh! se transpirava! Ossos largos e medicamentos não combinavam. Deus perdoava-o, e a sua mãe também. As suas mãos eram velhas e gastas, o seu bafo fétido como o de um morto. O seu olhar baço, ilegível. E transpirava, agarrado à gordura que enjaulava o seu coração, ao seu eterno altruísmo. Medo para quê? Perdão para quê? Tinha um lugar no Paraíso para si, já não podia temer que o descobrissem ou roubassem o que nunca deveria ter sido seu.

  O suspiro saiu-lhe longo e rouco por entre um sorriso afável, e o coração não aguentou mais toda a boa vontade que o rodeava: com uma pontada algo familiar, dobrou-o, forçou-o a agarrar-se com ainda mais força ao peito. Aquela posição de humildade era-lhe estranha, aquela dor superior às outras. Tossiu e arfou como um cão: Não estava com medo, não estava em pânico, não era um pecador, não era má pessoa, era altruísta, era generoso, era uma barriga cheia de boa vontade. O Paraíso esperava por si.

  Por fim – num momento quase tão orgásmico como o da nicotina a masturbar o seu sistema límbico – o velho afável resvalou e desfez-se no chão, o livro esmagado pelo seu corpo, as suas mãos de velho caídas aleatoriamente; o seu coração não conseguira suportar o peso do seu altruísmo.

Narciso

Ok, parece que ando com a mania de que quero escrever sobre o Narcisismo ou assim. Acabei por o fazer, tudo de uma só vez, sem estudos nem nada (erros e afins, my apologies), apenas com um esboço tosco do que queria com este texto. Aviso desde já que o mesmo contém uma espécie de homoerotismo esquizofrénico, pelo que qualquer mente que não tolere quer textos eróticos quer “referências” a homossexualidade, não deve, à partida, ler o que escrevi.

As for the others, any feedback is always more than positive 🙂

» O mundo éramos nós os dois, eu e o espelho, eu e eu. Não precisavamos de mais nada para além de nós. Poderia haver algo mais perfeito do que isto? Apenas tinhamos certezas, segurança, felicidade, amor. Ninguém no mundo conseguiria algo melhor. O que há de mais adequado a mim do que eu próprio?

Quando entrei no quarto, somente o espelho me olhara. Era maior do que eu, rectangular, imaculado, decorado por uma moldura dourada fortemente trabalhada na qual se distinguiam diversas figuras humans abraçando um par idêntico. Estava pendurado numa parede branca – a mesma que revestia todo o pequeno quarto – disposto de forma a que quem entrasse neste local escondido fosse directamente confrontado com a sua imagem.

Estes pensamentos, formulo-os em espiral. Mal me consigo concentrar em algo para além de mim, de nós. O tempo parece-me extenso, mas mal passou uma hora desde que entrei neste quarto. Sei que estou hipnotizado. Sei que não quero saber.

Desejo-me

Dou um tímido passo em direcção a mim mesmo. Vejo-me com mais nitidez, tendo a possibilidade de me deleitar com a minha própria imagem, com o meu cabelo curto brilhando à sobrenatural luz de nenhures, a minha face aparentemente mais simétrica do quie dela me recordo, com a pele mais lisa, mais limpa, a barba perfeitamente regular, os olhos grandes e chamativos, o meu corpo definindo a roupa sob a qual se esconde.

Esconder para quê?

À medida que dou passos crescentemente mais firmes e confiantes, vou-me livrando da minha roupa, tentando não parar para me deleitar com a minha própria graça. A cada passo, os meus gestos vão-se tornando mais frenéticos, mais desesperados, como se um calor impossível viesse de dentro de mim mesmo, capaz de fazer arder cada peça de roupa se não as retirar rapidamente. Respiro aceleradamente enquanto rebento com dois botões das calças – o meu tronco nu já perfeitamente visível – e quase tropeço na pressa cega de tirar os boxers.

Fico nu em frente ao espelho. Os meus olhos percorrem cada linha do meu corpo, demorando-se naquelas que melhor conheço. Ilusoriamente, a minha imagem ao espelho dá uma volta sobre si mesma, e eu fico desejoso de agarrar aquela ilusão, de beijar o meu próprio traseiro.

Quase tropeço, levado pelas minhas mãos à superfície fria do espelho. Agarro-me à sua moldura, tocando-o com o máximo do meu corpo possível. Fecho os olhos, imaginando que estou a tocar em mim mesmo. A erecção chega por fim inevitável. De uma forma que me teria chocado no meu estado normal, cresce-me água na boca. Mordo o meu lábio carnudo.

Não chega. Preciso de mais. Preciso de sentir mais. Os meus olhos abrem-se. Afasto do espelho a parte superior do meu tronco, e olho para a minha própria imagem. Sou lindo. Quero-me. Preciso de mim, preciso de foder com aquele espelho. Fecho os olhos novamente e, estremecendo de deliciosa antecipação, beijo o espelho.

E é como se uma língua – quente, familiar – abrisse caminho pelos meus lábios. Recebo-a sem qualquer pudor, lambendo-a de volta, sugando-a, procurando os lábios por trás dela. As minhas mãos agarram um corpo, e sinto-me a ser puxado de encontro a uma réplica de mim mesmo. Não preciso de abrir os olhos para sentir que é real, preciso apenas de me controlar para que tudo não seja demasiado rápido. Não podia chegar ao fim depressa demais.

Beijo-lhe o pescoço, e uma voracidade tenaciosa apodera-se de mim. Mordo aquele local em desespero sexual, indiferente às marcas que poderia causar; pior, queria marcar-me. Queria que o mundo soubesse que eu sou meu.

Ele puxa-me a cabeça para trás pelo cabelo, arrancando-me um gemido. A sua boca, os seus dentes, brincam pela base do meu pescoço, antes de chegar ao peito, enquanto as suas mãos – de dedos esticados – me descem pela base das costas. Entro em delírio e sinto-o igual. Quero-me tanto. Torço-lhe os mamilos porque não consigo chegar mais abaixo.

Subitamente, ele vira-me, e sou eu que estou contra o espelho. Sinto a sua pélvis a aproximar-se de mim, e as minhas mãos puxam-no para mais perto de mim, para onde ele podia causar estragos. Beija-me o pescoço, as suas mãos descem suavemente pelas minhas pernas, provoca-me com promessas de masturbação.

De repente, empurra-me. Sinto-me como se tivesse caído de uma montanha e quebrado a superfície congelada de um rio glacial. Está frio, um frio insuportável. Não compreendo o que aconteceu, e os meus olhos abrem-se, nervosos, sondando a escuridão que me rodeia. Sinto-me verdadeiramente assustado.

E então ouço uma voz atrás de mim.

Obrigado.

Viro-me bruscamente, sendo confrontado com uma janela luminosa do tamanho do espelho. Através dela, vejo um rapaz – alguém diferente de mim – vestindo as minhas roupas. Tento gritar, bato com a mão na janela rígida com toda a minha força. Em simultâneo, rapaz acaba de se vestir, indiferente aos meus gritos. As roupas ficam-lhe grandes.

Por fim, ele vira-se para mim, e o brilho sobre-humano nos seus olhos assusta-me. Sorri.

Obrigado, repete.

E, com um último aceno, vai-se embora.

Mas existe.

O que é isto que nos leva em frente,

sabendo quão árduo é o caminho,

este labirinto de percursos, ideias e gente

capaz de nos esmagar antes de termos prosseguido?


O qué é isto que nos deixa confiar,

— esta vida é a minha, partilho-a contigo —

esta ansiedade que nos obriga a arriscar

antes do tempo nos raptar um amigo?


O que é isto que nos corrói

esta acidez que vai sufocando a criança;

cada sonho que nos destrói

converte-se em cinismo devorador de esperança


De repente, o véu cai:

o sofrimento esculpe as rugas

a desilusão desfoca os olhos

a perda entorpece as mãos

a amargura seca a saliva

somos troncos ocos num furacão


Qual esperança?

Qual sentimento?

Qual razão?


“Andamos nós todos a falar sozinhos”,

ainda que sozinhos não tenhamos nascido

E acabamos por nos arrastar em frente,

por muito violentamente que a vida nos tenha batido



O que é isto que dobra as pessoas como papel

O que é isto que rasga sonhos como pano

O que é isto que apaga vidas como pavios

O que é isto que quebra almas como vidro


O que é isto que nos empurra e depois nos ergue,

lentamente,

sofridamente,

quando mais nada o podia fazer?

 

Não sei, mas existe.

Ah Ah

E prontos, há muito que não escrevo no blog. Tenho andado muito concentrado no livro, e feito imensas coisas ao mesmo tempo. Além destes obstáculos, também me vi privado do meu computador e tal, por isso pronto. Ontem tive um momento algo atrofiante dentro da minha cabeça, e saiu este poema. Foi algo primário, sem muitos estudos, mas pronto, tem tudo lá. Curiosamente, o poema em si podia ser resumido a uma conjugação particular de um verbo socialmente visto como feio: “Fodi-me”

Tem a ver com falhar
Tem a ver com a ampulheta
– alguém ta parte na cabeça –
e sentes a areia a escapar.

De tonto, vomitas
Rancoroso, choras
A areia foge depressa demais
Quebrado e fraco, lentamente cais

Ficas assim, partido no chão
Vazio de sentimentos, vazio de razão

A culpa foi tua.

Suplicamos a Deus pelo que não temos
Pecamos por procurar o que não merecemos
Não existe panaceia sem efeitos secundários
E assim sufocamos no lodo em que mergulhamos